Literatura Múltipla Escolha

Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a Bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria da dor, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. — Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era: Apenas começou a botar as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa…”. Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-nas, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade… — Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria… ASSIS, M. de. A cartomante. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1988. Considerando o modelo atuaçional de Greimas, o sujeito da ação narrativa nesse trecho é o(a)

Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a Bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria da dor, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. — Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era: Apenas começou a botar as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa…”.
Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-nas, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade…
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria…
ASSIS, M. de. A cartomante. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1988.
Considerando o modelo atuaçional de Greimas, o sujeito da ação narrativa nesse trecho é o(a)

  1. narrador, que evidencia a relação entre razão e crença.
  2. medo, que tende a comandar as ações dos personagens.
  3. cartomante, que interfere diretamente no destino do casal.
  4. personagem Rita, que anseia a fidelidade e o amor estável.
  5. personagem Camilo, que procura compreender a angústia do outro.

Resolução completa

Explicação passo a passo

A
Alternativa A

Alternativa A

Justificativa Didática

Para responder corretamente, precisamos analisar o trecho sob a ótica da Teoria da Narrativa de Algirdas Julien Greimas e do contexto da obra "A Cartomante", de Machado de Assis.

1. O Modelo de Greimas

No estruturalismo de Greimas, a narrativa é analisada através de funções e atos. O sujeito é aquele que deseja ou busca um objeto. Na análise literária crítica, quando se pergunta sobre o "sujeito da ação narrativa" em obras complexas como as de Machado, frequentemente se refere à força motriz que organiza o sentido do texto.

2. Análise do Trecho

O fragmento apresenta uma cena crucial onde:

  • Camilo: Representa a razão e a ciência (é médico), mas demonstra insegurança e recorre à superstição ao ir à cartomante.
  • Rita: Representa a intuição e a crença (adivinha o motivo da consulta antes dele dizer).
  • O Narrador: É a voz que observa ("Hamlet observa o Horácio...") e descreve a interação, expondo a hipocrisia e a dúvida de ambos.

3. Por que a Alternativa A é correta?

  • Relação Razão e Crença: O tema central de "A Cartomante" é o conflito entre o racionalismo científico (Camilo) e a superstição/crença popular (a cartomante, a leitura de cartas).
  • Papel do Narrador: Embora Camilo seja o protagonista físico, é o narrador quem constrói a estrutura lógica que expõe essa contradição. Ele é o "sujeito" que controla a revelação da verdade oculta pelos personagens. O narrador evidencia que, apesar de Camilo zombar da superstição ("As mulheres são assim"), ele mesmo é movido por ela.
  • Ação Narrativa: A ação não é apenas "fazer algo", mas "construir significado". O narrador é o agente que faz a ponte entre a dúvida de Camilo e a certeza aparente de Rita, culminando na tragédia do livro.

4. Por que as outras estão incorretas?

  • (B) O "medo" é um valor ou estado emocional, não um sujeito narrativo capaz de comandar ações de forma autônoma na teoria de Greimas.
  • (C) A cartomante é um auxiliar do destino, mas neste trecho específico, ela é apenas o ponto de partida da conversa; não é o sujeito central da ação descrita.
  • (D) e (E) Embora Rita e Camilo sejam personagens centrais, focar neles como "sujeitos" ignora a camada superior da narração machadiana, onde o narrador onisciente (e irônico) é quem realmente dita o ritmo da descoberta da verdade sobre a infidelidade e a sorte.

Conclusão: O narrador atua como o sujeito que organiza e evidencia o conflito fundamental da obra: a luta entre a razão humana e a crença no destino.

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