Literatura Múltipla Escolha

Leia o fragmento abaixo, retirado do conto Os Desastres de Sofia, de Clarice Lispector. Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de profissão, e passara pesadamente a ensinar no curso primário. Era tudo o que sabia dele. O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos. Em vez de ter uma tinta ombros contraídos. Usava paletó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosse e romano. E era ele a tudo por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele tinha em nos ensinar e, quase, viu adivinhar. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto, mexia com os colegas, interrompia a lição piedinha, até que ele dizia, vermelho: — Cale-se ou expulso a senhora da sala. Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu o exasperava tanto que se tornava doloroso para mim ser o objeto do daquele homem que de certo modo eu amava. Não o amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e um homem forte de ombros tão curvos. Ele me irritava. De noite, antes de dormir, ele me irritava.

Leia o fragmento abaixo, retirado do conto Os Desastres de Sofia, de Clarice Lispector.

Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de profissão, e passara pesadamente a ensinar no curso primário. Era tudo o que sabia dele. O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos. Em vez de ter uma tinta ombros contraídos. Usava paletó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosse e romano. E era ele a tudo por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele tinha em nos ensinar e, quase, viu adivinhar. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto, mexia com os colegas, interrompia a lição piedinha, até que ele dizia, vermelho:

— Cale-se ou expulso a senhora da sala.

Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu o exasperava tanto que se tornava doloroso para mim ser o objeto do daquele homem que de certo modo eu amava. Não o amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e um homem forte de ombros tão curvos. Ele me irritava. De noite, antes de dormir, ele me irritava.

  1. O enredo se revela sob o olhar do professor.
  2. O discurso indireto condiciona o texto à imparcialidade.
  3. As adjetivações detalham o espaço em que se dá a narrativa.
  4. Os elementos comparativos contribuem para o leitor entender os sentimentos do narrador-personagem.
  5. As sequências descritivas são mais relevantes do que as narrativas.

Resolução completa

Explicação passo a passo

D
Alternativa D

Alternativa D - Os elementos comparativos contribuem para o leitor entender os sentimentos do narrador-personagem.

Introdução ao Texto

O fragmento apresentado é de "Os Desastres de Sofia", de Clarice Lispector. Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa, onde a personagem principal relata sua relação conflituosa e complexa com um professor antigo.

Para responder corretamente, é necessário analisar como a autora constrói a subjetividade da narradora através de recursos linguísticos específicos.

Desenvolvimento

O texto não se limita a descrever fatos; ele mergulha na psique da narradora. Ela descreve o professor fisicamente, mas principalmente foca em seus próprios sentimentos contraditórios: atração misturada com desafio, irritação misturada com afeto.

Um ponto crucial para a compreensão dessa ambiguidade emocional está no uso de comparações (ou comparativos) no final do trecho. A narradora explica que seu sentimento não era romântico adulto, mas sim algo infantil.

Veja o trecho chave:

"Não amava-o como uma mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto"

Essa estrutura comparativa é essencial para decifrar a psicologia do personagem-narrador.

Análise das Alternativas

Vamos examinar cada opção para confirmar a escolha correta:

  • (A) Incorreta. O enredo se revela sob o olhar da narradora ("Eu era atraída por ele", "Passei a me comportar mal"), e não do professor. É uma narração em primeira pessoa.
  • (B) Incorreta. O texto é altamente subjetivo e parcial. Não há imparcialidade; pelo contrário, há uma carga emocional intensa e crítica sobre o comportamento dos dois personagens.
  • (C) Incorreta. As adjetivações (ex: "gordo", "silencioso", "ombros contráídos") detalham a física do professor, e não o espaço físico da sala de aula.
  • (D) Correta. Os elementos comparativos funcionam como ferramentas psicológicas. Ao comparar o amor dela ao de uma "criança protegendo um adulto", a autora permite ao leitor entender a profundidade e a natureza infantil desse vínculo afetivo.
  • (E) Incorreta. Embora haja descrições físicas ricas, as sequências narrativas (a interação, a confusão na sala, a resposta desafiadora) são fundamentais para desenvolver o conflito e a trama.

Conclusão

A alternativa D é a correta porque identifica o mecanismo literário usado por Clarice Lispector para revelar a complexidade interna da personagem. A comparação entre a postura de uma "mulher futura" e a de uma "criança atual" é o elemento que desbloqueia a compreensão dos sentimentos narrados.

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