Literatura Múltipla Escolha

Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhe sal da terra, porque quer que façam na terra o que o sal faz. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar? Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não recebem. Ou é porque o sal não salga, e os ouvintes querem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mais! VIEIRA, Pe. Antônio. Sermão de Santo Antônio. In: Sermões. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000 No trecho, o autor constrói um texto à base de metáforas cujo objetivo é a reflexão de quem ouve e lê. O jogo de ideias, conhecido como Conceptismo — ou Conceptismo —, estabelece

Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhe sal da terra, porque quer que façam na terra o que o sal faz. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar? Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não recebem. Ou é porque o sal não salga, e os ouvintes querem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mais!

VIEIRA, Pe. Antônio. Sermão de Santo Antônio. In: Sermões. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000

No trecho, o autor constrói um texto à base de metáforas cujo objetivo é a reflexão de quem ouve e lê. O jogo de ideias, conhecido como Conceptismo — ou Conceptismo —, estabelece

  1. uma crítica à corrupção da sociedade, sugerindo que os pregadores, como o sal, deveriam impedir a corrupção, mas falham nessa proposta.
  2. que a função do sal é preservar a carne da deterioração. Argumenta, dessa forma, que os pregadores cumprem essa função, mesmo em situações adversas.
  3. um questionamento sobre a solidez da ligação dos homens, pregadores ou não, com os mandamentos de Cristo.
  4. uma crítica aos padres e aos ouvintes, que deveriam impedir a corrupção da sociedade.
  5. um jogo de palavras entre as palavras “sal” e “salgar” como elementos ligados aos ouvintes fiéis, que devem ser o sal da terra.

Resolução completa

Explicação passo a passo

A
Alternativa A

Alternativa A - Uma crítica à corrupção da sociedade, sugerindo que os pregadores, como o sal, deveriam impedir a corrupção, mas falham nessa proposta.

Análise da Questão

Esta questão aborda um trecho clássico do Barroco Português, especificamente do Sermão de Santo Antônio dos Peixes, escrito por Pe. António Vieira. Para resolver, é necessário entender o estilo literário e a lógica retórica utilizada pelo autor.

1. O Conceito de Conceptismo

O Conceptismo é uma das características principais do Barroco (junto com o Cultismo). Ele valoriza o jogo intelectual, a inteligência e a construção de argumentos complexos através de metáforas e paradoxos.

  • Objetivo: Provocar o leitor a refletir profundamente sobre o tema, indo além da superfície.
  • No texto: Vieira usa a metáfora bíblica do "Sal da Terra" para discutir a moralidade dos pregadores.

2. Desvendando a Metáfora

Vieira estabelece uma equivalência lógica entre elementos físicos e sociais:

  • O Sal: Tem a função natural de impedir a corrupção (preservar alimentos).
  • Os Pregadores: Devem ter a função espiritual de impedir a corrupção da sociedade (manter a fé pura).
  • A Terra: Representa a sociedade humana.

3. O Argumento Central

O texto apresenta uma contradição observada pelo autor:

  • Se o sal impede a corrupção, e a terra está extremamente corrompida ("tão corrompa como está a nossa"), então o sal não está funcionando.
  • Vieira pergunta retorricamente: "Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma coisa e fazem outra?".
  • Isso revela uma crítica severa: Os pregadores foram chamados para salvar a sociedade, mas falharam em sua missão devido à hipocrisia e ao comportamento corrupto deles mesmos.

Justificativa da Resposta Correta

A Alternativa A é a correta porque sintetiza perfeitamente a estrutura do argumento de Vieira:

  • Crítica à corrupção: Reconhece que a sociedade está em mau estado.
  • Expectativa (Dever): Os pregadores, como o sal, deveriam impedir essa corrupção.
  • Realidade (Falha): Eles falham nessa proposta (pois "dizem uma coisa e fazem outra").

Por que as outras alternativas estão incorretas?

  • Alternativa B: Afirma que os pregadores cumprem a função. O texto diz exatamente o oposto ("por que o sal não salga?"), indicando que eles não estão preservando nada.
  • Alternativa C: Foca apenas na "solidez da ligação", o que é muito vago. O foco do texto é a ação prática (ou falta dela) de prevenir a corrupção.
  • Alternativa D: Embora mencione a crítica, ela omite o elemento crucial da falha na execução da tarefa, que é o ponto central das perguntas retóricas do texto. Além disso, o foco principal da metáfora do "sal" recai sobre a função dos pregadores.
  • Alternativa E: Reduz o texto a um "jogo de palavras" linguístico. Embora haja jogos de ideias, o objetivo é a crítica social e moral, não apenas o trocadilho.

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