Português — Interpretação Múltipla Escolha

Eu gosto muito de todas as festas de Diamantina; mas quando são na igreja do Rosário, que é quase pega à rainha do Rosário uma ex-escrava de vovô chamada Júlia e para rei um negro muito entusiasmado que eu não conhecia. Coitada de Júlia! Ela vinha há muito tempo juntando dinheiro para comprar um rancho. Gastou tudo na festa e ainda ficou devendo. Agora é que eu vi como fico arca para os pobres dos negros serem reis por um dia. Júlia com vestido e a coroa já gastou muito. Além disso, teve de dar um jantar para a corte toda. A rainha tem uma caudatária que vai atrás segurando na capa que tem uma grande cauda. Esta também é negra da chácara e ajudou no jantar. Eu acho graça e no entusiasmo dos pretos neste reinado tão curto. Ninguém rejeita o cargo, mesmo sabendo a despesa que dá! (MORLEY, Helena. Minha vida de menina. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 57.) O trecho acima apresenta marcas textuais que justificam o emprego da linguagem coloquial. O tom informal do discurso se deve ao fato de que se trata de

Eu gosto muito de todas as festas de Diamantina; mas quando são na igreja do Rosário, que é quase pega à rainha do Rosário uma ex-escrava de vovô chamada Júlia e para rei um negro muito entusiasmado que eu não conhecia. Coitada de Júlia! Ela vinha há muito tempo juntando dinheiro para comprar um rancho. Gastou tudo na festa e ainda ficou devendo. Agora é que eu vi como fico arca para os pobres dos negros serem reis por um dia. Júlia com vestido e a coroa já gastou muito. Além disso, teve de dar um jantar para a corte toda. A rainha tem uma caudatária que vai atrás segurando na capa que tem uma grande cauda. Esta também é negra da chácara e ajudou no jantar. Eu acho graça e no entusiasmo dos pretos neste reinado tão curto. Ninguém rejeita o cargo, mesmo sabendo a despesa que dá!

(MORLEY, Helena. Minha vida de menina. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 57.)

O trecho acima apresenta marcas textuais que justificam o emprego da linguagem coloquial. O tom informal do discurso se deve ao fato de que se trata de

  1. carta pessoal, escrita pela autora e endereçada a um destinatário específico, com o qual ela tem intimidade suficiente para suprimir as formalidades da correspondência oficial.
  2. narrativa regionalista, que procura reproduzir as características mais típicas da região, como as falas dos personagens e o contexto social a que pertencem.
  3. narrativa de memórias, na qual a grande distância temporal entre o momento da escrita e o fato narrado impõe o tom informal, pois a autora tem dificuldade de se lembrar com exatidão dos acontecimentos mencionados.
  4. narrativa oral, em que a autora deve escrever como se estivesse falando para um interlocutor, isto é, sem se preocupar com a norma-padrão da língua portuguesa e com referências exatas aos acontecimentos mencionados.
  5. registro no diário da autora, conforme indicam a data, o emprego da primeira pessoa, a expressão de reflexões pessoais e a ausência de uma intenção literária explícita na escrita.

Resolução completa

Explicação passo a passo

A
Alternativa A

Alternativa A

A questão aborda o gênero textual e as características da obra "Minha Vida de Menina", escrita por Helena Morley. O trecho apresentado exibe marcas claras de linguagem coloquial, como gírias ("pegada à chácara"), expressões populares ("reinos por um dia") e uma estrutura sintática flexível.

Essa informalidade não ocorre ao acaso; ela está intrinsecamente ligada à natureza do texto original.

Análise das Alternativas

Para identificar a resposta correta, é necessário compreender o contexto de produção da obra:

  • Gênero Epistolar: A obra é composta por cartas escritas por Helena Morley para sua tia em Portugal.
  • Intimidade: Por ser uma correspondência privada entre familiares, a autora sente-se à vontade para usar a língua falada, sem as restrições da norma culta exigidas em textos públicos ou acadêmicos.
  • Destinatário: O fato de haver um destinatário específico (sua tia) cria uma relação de proximidade, justificando o tom confessional e descontraído.
CaracterísticaJustificativa
Tom InformalDecorrente da comunicação familiar (carta pessoal).
LinguagemReproduz a fala cotidiana de Diamantina na virada do século XX.
ObjetivoManter contato com a família e registrar vivências pessoais.

As demais alternativas apresentam imprecisões conceituais:

  • B (Regionalista): Embora o texto tenha forte regionalismo, a causa principal do tom informal é o gênero (carta), não apenas a representação da região.
  • C (Memórias/Distância Temporal): O texto foi escrito contemporaneamente aos fatos, não havendo grande distância temporal que impeça a memória.
  • D (Narrativa Oral): Não se trata de uma narração oral gravada, mas de uma escrita que simula a oralidade devido à intimidade.
  • E (Diário): Embora tenha elementos de diário, a obra é estruturada como carta destinada a alguém, e não um registro privado sem destinatário.

Portanto, a alternativa que melhor descreve a origem do tom informal é aquela que aponta para a natureza da correspondência privada.

Alternativa A.

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