Português — Interpretação Múltipla Escolha

Por que a sentença “Ideias verdes incolores dormem furiosamente” pode ser tomada como exemplo da independência do nível sintático quanto ao sentido?

Por que a sentença “Ideias verdes incolores dormem furiosamente” pode ser tomada como exemplo da independência do nível sintático quanto ao sentido?

  1. Porque os falantes observam que a sentença segue a ordem canônica de constituintes do português brasileiro - sujeito, verbo e objeto - e se comunicam perfeitamente com ela.
  2. Porque os falantes já memorizaram essa sentença, desde que ela foi proposta por Chomsky, então eles já acessam pronta, sem a necessidade de conhecer o sentido.
  3. Porque ela ilustra uma sentença bem formada na língua, com palavras dispostas de modo não aleatório, seguindo a ordem de constituintes estabelecida na língua.
  4. Porque as palavras da sentença pertencem classes gramaticais previstas no português brasileiro, e a noção de classe gramatical não tem relação com o sentido das palavras da língua.
  5. Porque todas as palavras da sentença são conhecidas pelos falantes nativos do português brasileiro, e isso permite que eles concatenem as palavras de modo a formar enunciados novos.

Resolução completa

Explicação passo a passo

C
Alternativa C

Alternativa C

A questão aborda um dos exemplos mais famosos da teoria gerativista de linguagem, proposta por Noam Chomsky em seu livro Estruturas Sintáticas (1957). A frase "Ideias verdes incolores dormem furiosamente" serve para demonstrar que a sintaxe (estrutura da frase) funciona de forma independente da semântica (significado).

Fundamentação Teórica

Para entender a resposta correta, é necessário compreender dois conceitos fundamentais:

  • Sintaxe: Refere-se às regras que governam a organização das palavras em uma frase. Ela determina se a estrutura está correta gramaticalmente.
  • Semântica: Refere-se ao significado lógico das palavras e da combinação delas.

A frase apresentada possui uma estrutura gramatical perfeita em português:
\text{Sujeito} + \text{Adjuntos} + \text{Verbo} + \text{Advérbio}
(Ideas verdes/incolores) + (dormem) + (furiosamente)

No entanto, o conteúdo semântico é absurdo: ideias não têm cor verde ou incolor, nem podem dormir ou estar furiosas. O fato de os falantes nativos reconhecerem a frase como gramaticalmente válida, apesar de não fazer sentido lógico, prova que a capacidade linguística opera em níveis distintos.

Análise das Alternativas

  • Alternativa A: Incorreta. Embora siga a ordem canônica, o foco da questão não é a comunicação perfeita, mas a validade estrutural frente à falta de sentido.
  • Alternativa B: Incorreta. A teoria de Chomsky não se baseia na memorização de frases específicas, mas na capacidade mental de gerar infinitas combinações novas.
  • Alternativa C: Correta. Ela descreve exatamente o ponto central da teoria: a frase é "bem formada" (obedece às regras sintáticas) e as palavras estão dispostas de maneira não aleatória, seguindo a ordem de constituintes, mesmo que o sentido seja nulo. Isso evidencia a autonomia da sintaxe.
  • Alternativa D: Incorreta. A afirmação de que a classe gramatical "não tem relação nenhuma" com o sentido é muito radical e imprecisa linguisticamente. O foco da alternativa C é mais direto sobre a formação da sentença.
  • Alternativa E: Incorreta. Todas as palavras são conhecidas pelos falantes nativos; o problema é a combinação lógica delas, não o desconhecimento lexical.

Conclusão

A frase de Chomsky é o marco teórico que separa a análise da forma (sintaxe) da análise do conteúdo (semântica). A alternativa C é a única que descreve corretamente essa distinção, afirmando que a frase segue regras estruturais estabelecidas pela língua, independentemente do seu significado.

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